domingo, 10 de maio de 2009

Presentes

Meu primo me ligou ontem:
-- Diz uma coisa: tem algo que você esteja precisando que o seu primo te dê de presente? Uma roupa, um livro, tou rodando no shopping há duas horas...
(...)
Eu respondi:
-- Ah, se você quer resolver isso logo, um vale-presente de livraria vai me deixar feliz...

Mas a verdade é que é maaaais legal ganhar livros de presente. Ontem eu ganhei esse três aqui:

História de cronópios e famas, Julio Cortázar.

Até o dia em que o cão morreu - Daniel Galera.

E mais um, vindo direto de um sebo, sem capinha disponível na internet: Hospício é Deus, Maura Lopes Cançado.

O que eu mais gosto quando ganho livros é a sensação de intimidade. Assim: quando a gente dá pra outra pessoa um livro que gostamos, esperamos que ela goste também, que provoque nela as mesmas sensações que provocou na gente. E ninguém (bom, eu não faço isso) sai por aí dando o seu livro favorito de presente pra todo mundo. A gente escolhe.

sábado, 9 de maio de 2009

Duas canetas

Pra fazer justiça ao que escrevi nesse post aqui, segue trechinho de uma reportagem em que o Amos Oz fala sobre seus textos literários e políticos:

One way he marks the separation between the two forms of writing is by using two kinds of pen, one blue, the other black, that sit on his desk in the book-lined study of his home in this quiet desert town.

“I never mix them up,” he says of the pens. “One is to tell the government to go to hell. The other is to tell stories.”


fonte: NYT

É claro que o homem está anos-luz na minha frente.

quinta-feira, 7 de maio de 2009

Pra quem cansou da livraria Cultura...

Tá, não dá pra cansar pra sempre da livraria Cultura. Mas chega uma hora em que o eixo Paulista-Vila Madalena deixa a gente meio entediado... Deixando de lado as minhas razões off the record para não ser mais habituée da Cultura (que são muito diferentes das razões para evitar o Vegas e de natureza muito mais interessante, ok, nem é tão off the record), hoje eu descobri um lugar super bacaninha pra comprar livros e tomar café, perfeito pro domingo à tarde. O lugar se chama (eu acho...) Companhia da Leitura e fica na rua Vieira de Carvalho, 160 (isso eu tenho certeza), entre a praça da República e o Largo do Arouche. Apesar de não ter muito boa fama, essa rua é bonitinha, arborizada....A livraria tem uma parede de vidro e mesinhas que permitem ver o movimento na rua, livrinhos interessantes, tem até uma mesa redonda comunitária. O preço dos livros é o de livraria de bairro mesmo...

E como o penúltimo post eu escrevi ontem à noite, fiquei com a idéia fixa de ler um livro "no escuro". Perdoem a minha ignorância, mas eu não sei quem é Guilhermo Martinez. Gostei no nome, gostei do título e gostei da capa. Vai ser ele a cobaia.

É verdade que pelo nome do sujeito já dá pra ter idéia da onde ele é. Li umas 30 páginas e me fez lembrar muito o Mario Benedetti (tá certo que eu só li Quem de nós e pela metade) e um pouquinho o Guillermo Arriaga. Todos eles falam da amizade conturbada de dois adolescentes, sempre na voz do oprimido, enfeitiçado pelo outro, misterioso.

Se um viajante numa noite de inverno (5)

pag. 177 a 192

Este livro está me trazendo problemas. Tudo começou quando a Ludmilla se recusou a ir à editora com o leitor, por querer se manter afastada da produção dos livros, para ser apenas uma leitora. Ela não quer ter contato com escritores, gosta de pensar que os livros simplesmente nascem. Me pergunto se ela evita ler as orelhas dos livros, se lê sem ao menos saber da onde o autor vem e quando viveu. Nunca fiz isso, mas talvez seja um bom exercício. Eu poderia selecionar uns 3 livros de um autor cujo nome eu nunca ouvi antes e tentar descobrir quem e quando e onde... Mas o problema não parou aí. Ao visitar um escritor, a irmã de Ludmilla (Lotaria, anti-heroína total) pergunta a ele:

O que de fato é a leitura de um texto senão o registro de certas recorrências temáticas, certas insistências de formas e significados? (p. 191)

Foi nessa passagem que eu constatei a presença de um lapizinho verde na minha mão direita, sedento de trechinhos mencionáveis. Não que a leitura seja um prazer totalmente desinteressado. Aliás, sendo um prazer, por óbvio que há interesse (por isso a gente deixa de lado livros chatos e maçantes). Mas, me pareceu que o primeiro interesse, o da descoberta (Talvez a mulher que observo pela luneta saiba o que eu deveria escrever; ou talvez não o saiba, porque espera de mim justamente que eu escreva aquilo que ela não sabe, tudo o que ela sabe com certeza é sua espera, o vazio que minhas palavras deveriam preencher -p. 175) deixou de ser primeiro. E me angustiou pensar que não dá pra reler e tentar sentir o deslumbramento que o livro provavelmente pode provocar. Mas acho que muita coisa na vida é assim: até quando vi Guernica pela primeira vez numa gravura foi mais emocionante do que ver o mural em Madrid.

Não, não...estou sendo muito severa: ler Macunaíma pela segunda vez foi infinitamente melhor do que a primeira.

terça-feira, 5 de maio de 2009

Se um viajante numa noite de inverno (4bis)

Se um viajante numa noite de inverno -Italo Calvino -Cia das Letras, 2003 - página 165 a 172

Como a obsessão do homem não se resume a papeizinhos que se multiplicam dentro de um canudo, tudo é refletido. Assim:

O plano da emboscada previa que entre as motos Honda que me escoltavam e o automóvel blindado em que eu viajava se introduziriam três motos Yamaha conduzidas por falsos policiais, que freariam bruscamente antes da curva. Segundo meu contragolpe, três motos Suzuki deveriam bloquear minha Mercedes quinhentos metros antes, simulando um sequestro. Quando vi meu carro acuado por três motos Kawasaki num cruzamento que precedia os outros dois, compreendi que meu contragolpe fora posto em xeque por um contracontragolpe cujo autor eu desconhecia.

Contracontragolpe é como metametalinguagem. Por algum motivo isso me lembra que toda vez que eu vejo a palavra prescinde eu preciso traduzi-la para "não precisa".

Se um viajante numa noite de inverno (4)

Se um viajante numa noite de inverno -Italo Calvino -Cia das Letras, 2003 - página 165 a ...

Li, li, ontem à noite. Só um capítulo: numa rede de linhas que se entrecruzam. Primeiro cumpre esclarecer o que eu deixei de falar, tendo lido tantas páginas que ficaram sem pitaco. Este livro é muitos livros, lidos pelo o que podemos chamar de personagens do livro principal. São trechos de livros que se confundem, não há o começo, meio e fim tradicionais. Este capítulo, em especial, é a narrativa de um homem sobre a sua obsessão por espelhos e caleidoscópios, por reproduzir imagens e reproduzir a reprodução, sem que se saiba, ao fim, o que é real e o que é simulação.  SPOIL - Me lembrou As ruínas circulares do Borges. Tenho mais uma coisa a dizer sobre isso, mas preciso ver a marcação que eu fiz. À noite eu volto.

domingo, 3 de maio de 2009

Parêntesis ainda...

Vou terminar de arrumar meu quarto hoje eu vou retomar a leitura do Calvino. Vou me justificar: há alguns meses passei a ter o hábito de passar semanas com a leitura interrompida e só voltar a ler quando o momento me parece adequado. É neste passo que está "A pantera no porão", do Amós Oz. Aliás, nem é muito bom. Acho que ele se dá melhor escrevendo ficções sobre relacionamentos antre homens e mulheres (Não diga noite, A caixa preta) e escrevendo não-ficções no jornal sobre Israel e Palestina. Assim como eu sou muito melhor em sonhar baboseiras do que tentar reescrevê-las de forma intelegível (deixam de ser baboseiras, mas também deixam de ser interessantes).